Ocorre que no século IX, descobrem-se restos mortais e que são atribuídos ao apóstolo Santiago. A partir daí, a descoberta dos restos mortais do apóstolo Santiago, muda a apreciação que a cristandade tem sobre a península Ibérica e, sobretudo, sobre a região de Compostela, que passa a ser considerada a única cidade da Cristandade Latina, além de Roma, que possui os restos mortais de um apóstolo, ou seja, que possui uma relíquia extremamente valiosa do ponto de vista da ordem, da hierarquia do Sagrado Cristão e que por sua vez tem a função de estabelecer uma comunicação com o Sagrado. Ela religa como uma religião - vem da mesma raiz, religare. A questão é que esta sacralidade cristã, vinculada ao apóstolo São Tiago, na verdade remonta a uma sacralidade muito mais antiga.
A região de Compostela, no norte da península, é de fato uma região considerada sagrada muito antes dos cristãos a considerarem sagrada. Essa é a região em que haviam diversas necrópoles romanas e necrópoles celtas. Até a Idade Média, os corpos eram enterrados fora da cidade. Uma das mudanças no período medieval é a urbanização dos mortos, isto é, os mortos passam a ser enterrados dentro da cidade ou até mesmo dentro das Igrejas. Esta região do norte era uma região onde se praticava uma série de ritos fúnebres. Ritos destes diversos povos que ali habitavam o norte da península Ibérica e que tem a ver com o próprio termo que caracteriza a região. Em termos continentais, a região de Compostela é a região mais ocidental da Europa. Etimologicamente, ocidental vem de ócito, que significa cair morto. O ocidente é o lugar da morte, etimologicamente. Em oposição, ao oriente há o levante. O ocidente é o lugar da morte do sol. É isso que simbolicamente os povos de estruturas agrárias imaginam quando olham para região mais a oeste do continente europeu. O que eles vêem [?]: o sol se levantando no oriente e sendo tragado pelo mar, sendo tragado pelo oceano. E daí, uma série de projeções míticas relativas a este mar que se estabelece no ocidente. É a região mística, onde os celtas vão construir de forma lendária as Ilhas de Avalon, que são as ilhas dos mortos – um lugar onde as almas dos mortos vão habitar; é nesta região também em que os gregos vão identificar as Ilhas Afortunadas, é a região onde o Platão vai dizer que existiria lá a civilização da Atlântida, é a região em que os europeus vão identificar o mar tenebroso - que é tão tenebroso que ele mata o sol todos os dias, traga o sol, engole o sol e daí todas as projeções sobre este mar que termina sem aviso e que é habitado por uma série de monstros.
Esses elementos imaginários articulam-se a um outro fenômeno muito forte que está na raiz etimológica do próprio termo Compostela. Compostela, etimologicamente é campus estele, campo de estrelas. Da região norte da Europa se tem uma visão privilegiada da via-láctea. E assim, esta via-láctea vai ser interpretada como um caminho das almas em direção ao céu, a Deus. É assim que São Boaventura, no século XIII, vai se referir à via-láctea e a região de Compostela, ou seja, a região está completamente dotada de elementos simbólicos que aguçam a espiritualidade, aguçam a idéia de que essa peregrinação é uma peregrinação que convida a um caminho espiritual, um caminho trilhado pelo próprio Cristo.
O fato é que ao fazer o caminho, o principal elemento - independente do motivo pelo qual você decidiu fazê-lo - é o sofrimento. Fazer o caminho envolve, sobretudo, uma disposição daqueles que se submetem à peregrinação à uma situação de imitação de sofrimento do próprio Cristo. Daí, a idéia da peregrinação - e o que está por trás da peregrinação - é uma idéia de que o flagelante se coloca num caminho que é o caminho trilhado pela própria divindade. Esta imitação de “sentir o sofrimento do próprio Cristo na pele”, tem um efeito aproximador de ricos e pobres. Durante a peregrinação há como uma alteração das hierarquias sociais, pois durante a peregrinação, o sofrimento dos peregrinos abole temporariamente as barreiras sociais, as divisões sociais, as dignidades sociais, os privilégios sociais. Ao aproximar ricos e pobres e permite uma espécie de contato espiritual, através da relíquia, sem intermediação.
